Para pensar na vida – aqui e aí do outro lado do Atlântico

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Em setembro a gente completa dois anos de Inglaterra. Parece que foi ontem? De certa maneira, sim. Por outro lado, quando penso no assunto de verdade, parece que estamos aqui há muito mais tempo. Provavelmente porque o nosso estilo de vida combina muito mais com a vida aqui do que com a que tínhamos no Brasil. Por mais que eu seja a primeira pessoa a reconhecer o quanto de ideias pré-concebidas se costuma ter aí no Brasil sobre a Inglaterra, tem uma coisa que não tem como negar: aqui as coisas são estáveis, confiáveis, seguras. E isso faz a maior diferença na vida. Como um tudo e no cotidiano, no banal, no tudo sempre igual da rotina.

Em 20 meses, o inglês deu um salto. Mas o que melhorou muito mais mesmo foio entendimento da cultura, do jeitinho inglês. Não se engane, aqui também tem jeitinho, sim. Dentro da lei, obedecendo as regras abertamente, embora com muita flexibilidade para driblar qualquer dificuldade que apareça. Para quem ainda acha que os ingleses são frios e distantes, eu só posso dizer que não concordo nem um pouco. Talvez porque eu venha de uma parte do Brasil onde as pessoas também são consideradas frias e distantes.

A verdade é que, aqui, a vida funciona de um jeito que eu sempre imaginei que ela deveria. Como ontem, quando eu fui no McDonald’s para comprar um Happy Meal (sim, aqui o McLanche Feliz tem outro nome) para o meu filho. Não, ele não é fã de McDonald’s, mas ele  adora Minions e eu fui lá, sozinha, comprar para ele. Como fiz um pedido especial, fiquei esperando em frente aos caixas, no lugar em que normalmente fica a fila. Que não existia porque era cedo e todos os clientes estavam sendo atendidos super rápido. Mesmo assim, ao invés de correr para o caixa quando a atendente chamou, uma mulher que chegou depois de mim fez questão de perguntar se eu não estava na fila, porque eu estava ali antes dela e parecia estar esperando. Algo tão simples, tão banal, tão comum. Que aqui é corriqueiro e que faz com que viver aqui seja agradável.

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Outra história que eu tenho para contar e que ilustra o que eu penso sobre viver aqui. Uma funcionária da escola do meu filho teve a casa arrombada no início deste ano. Quebraram a tranca de uma janela (as janelas aqui só tem vidro, sem veneziana, sem grades) nos fundos da casa, entraram, roubaram o vídeo game dos filhos dela que estava na sala (eu sou velha, gente, não lembro marca nem modelo, mas era o mais popular, o mais caro, tinha sido presente de Natal). Mas o ladrão, não contente, resolveu subir as escadas e procurar por celular e jóias no andar de cima. Era um ladrão burro, claro. Porque a família estava toda em casa, dormindo. Ela acordou, gritou. O ladrão burro saiu correndo, escapou. Mas deixou cair o próprio celular.

Ela chamou a polícia. A polícia veio, foi educadíssima (a polícia daqui sempre é), deu conselhos, tirou impressões digitais, levou o celular do ladrão. (Quer saber qual foi o conselho? Falaram para ela comprar outro vídeo game para os meninos, para que eles não ficassem traumatizados). Umas semanas depois, ela foi chamada na delegacia. A polícia tinha prendido o ladrão. Ele ainda estava com o produto do roubo. Ele estava preso, porque era reincidente. Ele provavelmente não ia ser mandado para a prisão porque aqui os ladrões pagam multas e cumprem serviços comunitários e são proibidos de andar em determinadas partes da cidade – para que não roubem de novo. Mas quando ela pediu se podia ver ele cara a cara, o policial disse que era contra a lei. Porque o ladrão ainda não tinha sido processado e condenado pelo roubo, estava aguardando por isso, na verdade.

Fica fácil acreditar na polícia, quando ela é eficiente. Fica fácil acreditar no sistema, quando as pessoas respeitam os direitos dos outros. Fica fácil gostar de caminhar na rua, quando você não se sente ameaçado. Fica fácil acreditar no ser humano quando você vê as criancinhas na escola serem ensinadas que boas maneiras são algo fundamental. (Sim, aqui se acredita que é, sim, papel da escola ensinar boas maneiras e não só o conteúdo do currículo).england3

E, sendo mulher, eu me sinto na obrigação de contar mais uma historinha. Eu caminho bastante, todos os dias. Para fazer compras, para levar meu filho na escola, para levar meu filho no parque… Faz parte da minha rotina diária. Apesar do meu comentário lá em cima, a respeito da minha idade, não aparento os meus quase 40 anos de idade. Não sou a Gisele Bündchen mas também não sou um tribufu, se é que você me entende. Pois bem. Eu caminho aqui há 20 meses. Nunca ouvi um assobio na rua. Nunca ouvi um comentário masculino (ou feminino) de mal gosto. Nunca vi nenhum homem ser grosseiro com desconhecidas na rua.

O máximo que me aconteceu, no inverno passado, foi um cara (que provavelmente tinha idade para ser meu filho…) me falar, na frente de um supermercado, perto da escola do meu filho, algo do tipo “It’s cold today! Are you feeling cold?” com um inglês não lá muito fluente. Eu não gostei, me senti invadida na minha privacidade de transeunte, mas, né? Vamos combinar, ele não foi grosseiro, ele não falou nada sobre a minha bunda ou qualquer parte do meu corpo. Sinceramente, nem sei se dá para dizer que comentar sobre o tempo com uma estranha enquanto se atravessa a rua pode ser considerado grosseria. Talvez eu, por ter ignorado solenemente, tenha sido mais grossa do que ele. Na dúvida, ignorei, porque tarado tem em tudo que é canto.

Mas meu ponto, ao contar isso, é só para dizer que, se isso é ser frio e distante, eu só quero viver em lugares onde as pessoas são frias e distantes! (Para ser justa, acabei de lembrar que meu marido viu, na semana passada, um cara fazer um comentário grosseiro para uma menina na rua. O cara aparentava estar bêbado, claro). E preciso também dizer que eu passo, todos os dias, ao menos uma vez por dia, na frente da obra de um prédio grande, com uma penca de trabalhadores. Mesmo assim, nunca vi um homem ser grosseiro com uma mulher desconhecida na rua.

E este post, que era para falar do que eu sinto depois de 20 meses vivendo aqui em Plymouth, que é uma cidade calma de cerca de 200 mil habitantes (ou pelo menos era, na última vez que eu pesquisei as estatísticas), acabou virando quase que um tratado feminista sobre a sensação libertadora que se tem ao andar na rua sem se preocupar com nada a não ser a sua própria vida.

 

15 comentários sobre “Para pensar na vida – aqui e aí do outro lado do Atlântico

  1. Nossa, que experiência gostosa vc está tendo aí. Essa sua experiência, se me der licença vou repassá-la para meus filhos e meu marido. Quem sabe um dia meus filhos também não irão ter essa oportunidade um dia? Ficarei tranquila, pois sei que na Europa há um povo educado, pelo menos a maioria, onde se pode transitar sossegado pelas ruas e cidades. Parabéns e obrigada por nos compartilhar essa experiência maravilhosa que estais tendo em sua vida. Bjs. Walkiria.

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  2. D.
    Fico feliz pela integração da tua família num sistema em que a tranquilidade e a educação sejam corriqueiras ao dia a dia. Que bom viver assim!
    Abraço
    S. O.
    Rio

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  3. Dani, boa noite!
    Lindo seu depoimento.
    Eu tb saí de SP, mas não fui para tão longe…rs…cheguei apenas no interior do Mato Grosso…rs….
    Mas tenho uma qualidade de vida melhor que quando morava na Capital.
    São 3 anos aqui, dois de adaptação que foram complicados. Clima muito quente, 6 meses de chuva (ótimo) mas , 6 de seca, péssimo para minha saúde. Distância da família. E a cultura que mesmo sendo no mesmo País é bem diferente. Ah, fora as restrições de Cidade pequena. Mas agora estou adaptada!
    Um grande aprendizado!
    Bjs e sempre vá contando mais daí, nunca tive a oportunidade de viajar para fora do Brasil, um sonho, mas ver o que as outras pessoas contam me deixa feliz!
    Pati

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    • Eu ainda tenho muito para conhecer daqui, Pati, mas cada vez que conheço algo novo, gosto mais do que vejo. Para sorte minha, o clima aqui no Sul da Inglaterra é bem parecido com o clima lá no Sul do Brasil onde eu morava. O que difere é o calor: aqui quando está bem quente faz 23°C! Eu adoro, porque nunca me adaptei ao calor do verão brasileiro. Aqui moro numa cidade bem menor do que a que morava no Brasil, mas é incrível como se tem acesso a muito mais coisas!
      Boa sorte para você!
      Beijos

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  4. Que legal!!! Confesso que tenho caminhado bastante (ja passei dos 40 né, e quero agora ser sarada) mas me encomoda muito as grosseirias e piadinhas que escuto na rua aqui em Pelotas/RS. Ignoro total, pois tenho medo da reação das pessoas. Hj nínguem tolera mais nada. Que nojo!!! Mas fico feliz por ti, em por estar vivendo bem, falei com a tua mãe na semana passada e ela disse-me que ficou com vontade tbm de morar aí, que adorou o local e q ja esta de passagens compradas. Tudo de melhor pra ti minha amiga! Bj e saudades.

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  5. Que coisa boa, Dani! Curta e comemore cada segundo aí. 🙂
    Para vc ter um paralelo: hoje moro numa cidade também de 200 mil habitantes. Só que fica no Brasil, no interior de SP. Já ouvi tantos comentários desagradáveis na rua aqui… É realmente triste porque eu adoro caminhar, adoro me deslocar à pé. Infelizmente, aqui não temos o direito de ir e vir sem ouvir “gracinhas” (pra não dizer outra coisa, né?). Assim como aqui precisamos colocar grades nas janelas, também fui obrigada a desenvolver algumas “proteções” para caminhar sozinha na rua, em plena luz do dia… 😦
    Falando em caminhar, como é aí o respeito ao pedestre? Aqui, no Brasil, o pedestre pode ficar um tempão sobre a faixa de segurança e somos realmente invisíveis aos motoristas… Placidamente ignorados! Os carros sempre têm a preferência (é a lei do mais forte)! Quem dá a vez ao pedestre, recebe uma bela buzinada do carro de trás… Quanto aos europeus, sei pouco. No centro histórico de Roma, é exemplar o comportamento dos motoristas. Já em Paris, achei os motoristas iguais aos nossos brasileiros, sem nenhuma educação no trânsito… :/
    Bjs,

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    • Vanessa, eu diria que aqui 90% dos motoristas param quando veem que você está na calçada, esperando para colocar o pé na faixa de segurança. No geral, os motoristas são educados. Comparado com o Brasil, eu diria que aqui são muito educados 😉
      Bjs

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  6. Oi, Dani!
    que bom ler um post seu!

    Por diversas razões (entre elas a minha família que mora toda aqui/trabalho do meu marido, etc.) continuo vivendo em SP… mas a coisa por aqui está cada vez pior!! (acho que vc viu no face que fui assaltada, junto com meu filho, com arma apontada e tudo!! um horror!).

    Pra mim, de tudo o que vc descreveu, o que mais encanta é a ideia de viver com a sensação de paz, podendo ir a qq lugar sem medo… É muito triste o grau de insegurança a que chegamos aqui!! os bandidos estão cada vez mais agressivos e descarados, cientes da impunidade que reina gloriosa! a polícia, cada dia mais comparada aos próprios bandidos, desacreditada totalmente! os políticos alimentando continuamente esse ciclo, que infelizmente não parece ter muita chance de melhora…

    Tão bom saber que existem lugares como a Inglaterra no mundo ainda! Adoraria ser corajosa o bastante pra adotar algum deles como lar… quem sabe um dia…

    Um bjo!!!!

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  7. Faz Tempo….
    Será que vai acostumar com o Brasil Novamente??
    Fica por aí querida, pois, aqui, país de terceiro mundo,disfarçado de democrático não dá pra ser feliz!!!
    Quem sabe na próxima encarnação eu tenha um presente como esse..que é conviver com pessoas evoluídas moralmente!!!
    Sou filha de europeus e sinto falta desse jeito deles polidos,carinhosos, quietos,respeitadores e L I V R E S!!
    Toda sorte do mundo pra você aí.Escuta uma coisa….você não tá perdendo nada ficando por aí, aliás, só ganhando paz.De vez em quando venha apenas para matar saudades da família,Não é????

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